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Muito se fala sobre Tone at the Top. Conselhos de administração e alta liderança são, de fato, responsáveis por definir direcionamento estratégico, valores e posicionamento institucional. No entanto, existe um ponto muitas vezes negligenciado nos programas de compliance: é no nível intermediário que a cultura ganha vida ou perde força.

Esse é o chamado Tone from the Middle.

Se o topo declara valores e a base executa tarefas, é a média gestão que traduz discurso em prática cotidiana. São os gerentes, coordenadores e líderes de área que transformam políticas em comportamento observável.

Cultura não nasce em apresentações institucionais

Códigos de ética são importantes. Campanhas internas também. Mas cultura organizacional não se constrói apenas em comunicados formais ou treinamentos anuais.

Ela se manifesta nas decisões diárias:

  • Na forma como metas são cobradas;
  • Na resposta a um erro reportado;
  • No tratamento dado a uma denúncia;
  • Na maneira como conflitos são conduzidos.

E quem conduz esses momentos? A liderança intermediária.

Quando um gerente relativiza uma regra para “não perder resultado”, envia uma mensagem mais forte do que qualquer cartilha institucional. Quando ignora um comportamento inadequado porque “não quer problema”, reforça silenciosamente uma cultura de tolerância ao risco ético.

O contrário também é verdadeiro. Um líder que age com coerência fortalece o ambiente de integridade de forma concreta.

O elo entre estratégia e operação

A média gestão ocupa uma posição estratégica: está próxima o suficiente da alta liderança para compreender diretrizes e próxima o bastante das equipes para influenciar comportamentos.

É nesse espaço que a governança deixa de ser conceito e passa a ser prática.

Se a alta administração afirma que a empresa não tolera retaliação, mas gestores intermediários isolam colaboradores que reportam problemas, há ruptura entre discurso e realidade. E essa ruptura compromete a credibilidade do programa de compliance.

O Tone from the Middle funciona como um termômetro da cultura. Ele revela se os valores estão incorporados ou se permanecem apenas no plano formal.

O risco da ambiguidade

Um dos maiores desafios está na ambiguidade. A liderança intermediária sofre pressão por resultados, metas agressivas e prazos curtos. Se não houver clareza sobre prioridades, o risco é que desempenho financeiro se sobreponha à integridade.

É nesse contexto que o compliance precisa atuar de forma estratégica.

Programas maduros não se limitam a treinar colaboradores da base. Eles desenvolvem gestores, trabalham dilemas reais, promovem discussões sobre tomada de decisão sob pressão e reforçam que resultados não justificam desvios.

Sem esse alinhamento, cria-se uma cultura paralela: uma oficial e outra operacional.

Desenvolvendo o Tone from the Middle

Fortalecer o Tone from the Middle exige intencionalidade. Algumas práticas são fundamentais:

  • Capacitação específica para gestores, focada em liderança ética e gestão de riscos;
  • Avaliação de desempenho que inclua critérios comportamentais, não apenas metas quantitativas;
  • Incentivo à escuta ativa e proteção contra retaliação;
  • Exemplo consistente da alta liderança ao lidar com violações, independentemente do nível hierárquico.

Além disso, é essencial que a área de compliance esteja próxima da média gestão, não como fiscal isolado, mas como parceiro estratégico.

Onde a cultura realmente acontece

Cultura organizacional não é o que está escrito na parede. É o que acontece quando ninguém está olhando.

E quem influencia esse “quando ninguém está olhando” são, na maioria das vezes, os líderes intermediários.

Se o topo define a direção e a base executa as tarefas, é o meio que determina o ritmo e a coerência do percurso.

Por isso, programas de compliance que ignoram o Tone from the Middle correm o risco de investir energia apenas no discurso institucional, sem transformar comportamento.

A verdadeira consolidação da integridade ocorre na gestão cotidiana, nas reuniões operacionais, nas decisões rápidas, nos pequenos gestos repetidos diariamente.

É ali que a cultura se fortalece.

Ou se fragiliza.

No fim das contas, a governança começa no topo.
Mas é no meio que ela se sustenta.