Imagine um desafio financeiro tão complexo que levaria séculos para ser resolvido por sistemas atuais, e que, com computação quântica, pode ser solucionado em segundos. Essa revolução tecnológica oferece ganhos sem precedentes na análise de grandes volumes de dados e otimização de carteiras financeiras. No entanto, ao mesmo tempo em que abre novas possibilidades, levanta questões críticas sobre governança corporativa: como acompanhar e controlar, com responsabilidade, a adoção de tecnologias que evoluem mais rápido do que os frameworks tradicionais de governança e compliance sob os quais deveriam ser regidos?

Enquanto computadores clássicos operam com bits binários (0 ou 1), os quânticos usam qubits, que funcionam em múltiplos estados simultaneamente. Essa característica torna possível realizar simulações, análises de risco e modelagens financeiras em tempo recorde. O setor financeiro já explora essa vantagem: algoritmos quânticos vêm sendo testados para melhorar modelos de precificação, gestão de riscos e estratégias de investimento.

Mas, a sofisticação técnica da computação quântica também cria uma assimetria de compreensão entre executivos, conselheiros e investidores. A governança tradicional, centrada em processos lineares e auditáveis, enfrenta dificuldades para acompanhar decisões tomadas com base em modelos probabilísticos de difícil validação. Como conselhos fiscais e comitês de auditoria poderão supervisionar algoritmos cuja lógica nem sempre é transparente?

Além disso, surge um novo campo de riscos: a segurança cibernética quântica. Com o avanço dessa tecnologia, técnicas criptográficas que protegem bilhões de transações diárias podem tornar-se obsoletas, exigindo uma resposta imediata por parte das lideranças de TI e de compliance. A falta de preparo pode expor organizações a brechas graves, tanto do ponto de vista técnico quanto reputacional.

Outro ponto sensível é a comunicação com os públicos estratégicos. É fundamental que investidores e agentes reguladores compreendam não só os potenciais da computação quântica, mas também suas limitações e riscos. Transparência, clareza e engajamento devem orientar essa narrativa, evitando percepções distorcidas sobre a real maturidade tecnológica da organização.

Diante disso, conselhos e lideranças empresariais precisam reavaliar urgentemente seus modelos de governança. Isso inclui capacitação das equipes, revisão de frameworks regulatórios, fortalecimento da resiliência cibernética e, sobretudo, construção de um modelo de supervisão compatível com a complexidade quântica.

Não se trata apenas de adotar uma nova tecnologia, trata-se de reconfigurar a própria lógica de como o poder é exercido, fiscalizado e compartilhado dentro das empresas. A era da computação quântica já começou. Sua organização está preparada para governá-la?

Autor: Gustavo Henrique Rodrigues Pessoa, aluno do Doutorado Profissional em Administração da FGV EAESP e Manager Director da Taleb Taleb Capital Hedge Fund.

Disponível originalmente no Estadão. Publicado na CompliancePME em 22 de junho de 2026