O programa de compliance precisa estar inserido na rotina das empresas para ser efetivo. Profissionais com consciência e conhecimento das políticas e dos procedimentos estabelecidos pela organização tornam-se verdadeiramente comprometidos com um ambiente ético e transparente. A comunicação e o treinamento são peças-chave para que as normas de integridade alcancem os funcionários e os parceiros da corporação e, assim, sejam realmente colocadas em prática.

Diante da relevância da capacitação para o bom funcionamento dos negócios, 73% das empresas no país projetam investir em treinamentos de conformidade até 2024, de acordo com a pesquisa “Integridade Corporativa no Brasil – Evolução do compliance e das boas práticas empresariais nos últimos anos”, da consultoria e auditoria Deloitte, de 2022.

Comunicação e treinamentos é o tema da 5ª reportagem da série de conteúdos “Integridade e Governança”. O ciclo abordará os 8 pilares dos padrões a serem seguidos para a integridade empresarial em um programa de compliance. Conheça todos os pilares ao final deste texto.

Os valores e as regras adotados por uma empresa, que compõem o código de ética e conduta, precisam ser acessíveis para todos os envolvidos na cadeia de produção. Os treinamentos servem para apresentar e reforçar esses princípios, com direcionamento tanto para o público interno quanto para parceiros de negócios. Enquanto a comunicação tem o papel de divulgar e informar sobre os padrões e as ações de integridade da organização.

No mundo, 93% das corporações investem em uma combinação de treinamento, código de conduta e política de denúncia, segundo levantamento “Global Integrity Report 2022”, da consultoria e auditoria Ernest Young. Regularmente, 46% investem em capacitação de compliance.

A diferença entre um treinamento comum e o de compliance está na camada da ética e no juízo de valor que permeiam os processos envolvidos, explica Yoon Jung Kim, sócia-fundadora da plataforma Mundo ESG e da consultoria 4K Governança Corporativa e Compliance. Para a especialista, o treinamento de integridade é fundamental para transmitir aos colaboradores e fornecedores os valores da companhia e a expectativa de comportamento esperada em uma determinada situação, para que atuem com autonomia e saibam prevenir riscos.

“Não basta um colaborador saber como funciona a organização, saber apertar botão A, B, C ou D e seguir processos ou procedimentos. Vai ter aquela situação de zona cinzenta, que não está escrita em nenhum lugar e sobre a qual nenhum gestor comentou e ele vai ter que enfrentar. Nesse caso, o colaborador tem 2 condutas a tomar: a que traz um valor pessoal, de casa, da escola, da sua formação, e o valor que a empresa traz”, disse Yoon Jung Kim.

Estratégias de comunicação e treinamento devem estar na rotina

A mensagem isolada não é suficiente para criar uma cultura de integridade. Os princípios são reforçados continuamente por meio de ações constantes com colaboradores internos e parceiros de uma companhia.

De acordo com a última pesquisa “Maturidade do Compliance no Brasil”, da consultoria e auditoria KPMG, 82% dos colaboradores receberam treinamento sobre o tema no país. Nos 12 meses anteriores ao estudo, a principal capacitação oferecida pelas empresas foi a de código de ética e conduta.

O investimento em treinamento e estratégia de comunicação da mensagem-chave para os colaboradores, a modo de conscientizá-los sobre a importância do programa de compliance, é prioridade na J&F Investimentos. A holding contabiliza, de 2017 até o início de 2023, 487.867 colaboradores treinados em mais de 400 temas. Cada empresa do grupo adequa as capacitações conforme o público-alvo, para que as diretrizes cheguem a todos de forma simples e prática.

A head de compliance da Flora Cosméticos –uma das empresas do grupo–, Juliana Bandetini, explica que é desenvolvido anualmente um cronograma de comunicação corporativa enviado pela holding, para que os pilares das políticas de conformidade sejam compreendidos e aplicados por todos.

No planejamento, há comunicados já previstos para serem feitos ao longo do ano, como explicações e reforços sobre as regras estabelecidas. Também é feita a inserção de materiais esporádicos, de acordo com a necessidade das políticas enviadas previamente, que são adequadas à realidade de cada empresa. Nos últimos 5 anos, 684 comunicados foram divulgados pelos canais corporativos do grupo, como e-mail, mural, TV e rádio.

Além disso, o grupo J&F investe em comunicação efetiva, adaptando-se à realidade de cada setor. Uma vez por semana, durante o DDS (Diálogos Diários de Segurança) –reuniões diárias lideradas pela equipe de segurança do trabalho com temas direcionados ao público das operações das fábricas–, são apresentados conteúdos previstos pela área de integridade.

Formatos diferenciados aproximam o público do compliance

A personalização e o direcionamento dos materiais informativos e cursos oferecidos aproximam o público-alvo do assunto abordado. Hoje, com a tecnologia, diversos formatos podem ser aproveitados para tornar os conteúdos sobre valores e normas corporativos mais atraentes e compreensíveis para colaboradores e parceiros de negócios.

Segundo Yoon Jung Kim, uma das estratégias que vêm sendo utilizadas pelas instituições é o recurso da gamificação, ou seja, o uso de mecânicas e características de jogos que engajam, motivam comportamentos e facilitam o aprendizado de pessoas em situações reais, tornando conteúdos densos em materiais mais acessíveis.

“Para despertar interesse, o conteúdo tem que ser assertivo, curto, de preferência, audiovisual, de fácil compreensão, com linguagem amigável. E, em vez de serem treinamentos longos, devem ser mais curtos, em periodicidade menor, em que a pessoa possa interagir e que aquilo faça parte do dia a dia”, explicou a sócia-diretora da 4K Governança Corporativa e Compliance.

Como parte da estratégia para 2023, a Flora Cosméticos investiu na produção de 4 webséries, segmentadas por público-alvo da empresa ­­–administrativo, vendas, operacional e liderança. Juliana Bandetini afirma que, por meio dessa ferramenta, os mesmos temas são adaptados e direcionados para cada grupo. No caso dos setores operacionais, que não têm acesso à plataforma digital por um computador ou celular corporativo, o curso é adequado e apresentado presencialmente nas fábricas.

“O objetivo dessas webséries serem separadas por grupo é justamente para conseguirmos adequar a linguagem e o aprendizado para todos os colaboradores. No final de cada episódio, o participante é direcionado para um jogo de quiz, perguntas e respostas, com a intenção de verificar a retenção do conteúdo abordado nos treinamentos”, disse Juliana Bandetini. A partir do teste final, é possível medir a efetividade do treinamento para que sejam feitos ajustes, segundo a head de compliance da Flora Cosméticos.

De acordo com o previsto na norma internacional ISO-37001, os treinamentos de integridade precisam ser realizados ao menos anualmente. Porém, para a sócia-fundadora da plataforma Mundo ESG, ganha-se excelência pela repetição. Por isso, esse pilar precisa estar incluído na rotina das organizações.

A mensagem pode ser reforçada por meio de pílulas de conteúdo em variadas linguagens, com comunicação direta e clara, implementada como prática natural da empresa. “Mais importante do que o que está escrito é o que se pratica, se consolida, é o que se sedimenta dentro de uma empresa”, afirmou Yoon Jung Kim.

 

Compliance para toda a cadeia de produção

Além dos colaboradores, outros stakeholders demandam atenção das empresas. As companhias contratantes podem realizar ações ou estabelecer em contrato que as organizações parceiras façam treinamentos. A pesquisa da Deloitte, de 2022, aponta que 30% das empresas fazem essa exigência em mais de 80% dos acordos assinados.

Para Yoon Jung Kim, o compliance precisa ser amigável para os negócios, orientado pelos negócios e desenhado para que seja correto, evite o errado e minimize a concretização de um risco, com envolvimento de todas as áreas da companhia. Uma empresa que trabalha a conformidade e a integridade de forma estruturada faz gestão de risco de fornecedores e prestadores de serviço.

No Brasil, 32% das instituições, ainda segundo relatório da Deloitte, fornecem treinamento para parceiros anualmente, com projeção de 60% de renovação de contrato. “Integridade em 1º lugar. É importante ter código de conduta próprio para parceiros de negócios, ter treinamento para onboarding (integração) e homologação para ser um fornecedor que fica no banco de dados de determinada empresa”, disse. Para a consultora, é essencial repetir os treinamentos, sempre vinculados à questão de pagamento ou de não atualização contratual para garantir a efetividade deles.

O cronograma anual da J&F Investimentos prevê comunicados direcionados para parceiros de negócios e, 2 vezes ao ano, a companhia realiza eventos para terceiros com participação do setor de compliance na programação e espaço para tirar dúvidas.

“O grupo faz um treinamento específico para fornecedores e clientes justamente para eles saberem como devem se relacionar com as empresas do grupo, o que nós aceitamos e o que não pode ser feito nessa relação, inclusive sobre a questão de conflito de interesses”, afirmou Juliana Bandetini.

A holding considera que os treinamentos elevam os padrões dentro do grupo e fazem com que não só os colaboradores, mas toda a cadeia de produção esteja preparada para cumprir os padrões de ética esperados pela organização.

“O grupo J&F entende que o pilar comunicação e treinamento é uma ferramenta fundamental para se trabalhar a cultura da empresa e também para ter um programa de integridade sólido e eficaz, porque sem o treinamento, sem o conhecimento, não tem como colocar as políticas e os procedimentos de uma maneira assertiva”, disse a head de compliance da Flora Cosméticos.

 

Originalmente publicada em Poder360

Publicado na CompliancePME em 11 de abril de 2023