Publicado na CompliancePME em 19 de fevereiro de 2024

Uma pesquisa feita pela consultoria PwC Brasil investigou se as startups de agronegócio estão atendendo às expectativas dos investidores no quesito governança corporativa. A conclusão do estudo foi que muitas empresas ainda não desenvolveram estratégias em gestão de pessoas e recursos.

Como exemplo, 32% dos investidores ouvidos disseram esperar que startups em fase de validação (na qual o produto está em fase de experimentação) já apresentem um conselho consultivo. Ou seja, ter bem definido quem seriam os profissionais responsáveis por assessorar e orientar as decisões da empresa. Entretanto, 0% das startups analisadas alegaram possuir esse planejamento.

Na fase de tração, em que a empresa já lançou o produto no mercado, apenas 25% têm conselho consultivo e 19%, conselho de administração. “A maior expectativa dos investidores nesta fase em relação ao pilar de pessoas e recursos é contar com um conselho de administração que dê apoio estratégico aos sócios na jornada de crescimento da organização”, diz a pesquisa feita em 2023.

A PwC Brasil destaca ainda outro resultado que vê como negativo. “Nenhuma startup do agronegócio na fase de escala [etapa de estabilidade e busca de expansão] pratica todas as atividades recomendadas para a sua categoria no pilar de pessoas e recursos. O dado preocupa”, diz o texto do estudo.

A importância da governança corporativa

No mundo dos negócios, governança corporativa é “o sistema formado por princípios, regras, estruturas e processos pelo qual as organizações são dirigidas e monitoradas”, define o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). O termo, no entanto, ainda pode causar dúvidas entre muitos empreendedores.

“A governança sempre existiu em empresas maiores. Por muito tempo, foi ignorada pelas startups e acredito que há uma dificuldade de entendimento sobre o que é de fato esse conceito, o qual eu resumo em ‘como as coisas devem acontecer’”, sintetiza Elisheva Cesco Martinelli, psicóloga, mentora de carreira e conselheira de startups.

Elisheva aconselha que toda empresa, independentemente da fase em que se encontre, tenha uma governança bem-definida. Mesmo que o foco não seja captar investimentos (ou seja, sem a necessidade imediata de atender às expectativas de investidores), a área é vista como essencial para a continuidade e a boa saúde de um negócio, previne conflitos e faz com que a empresa funcione com maior previsibilidade, explica a profissional.

Existem casos específicos em que esse processo costuma ser mais complexo. “A implementação das práticas tende a ser mais desafiadora em empresas familiares, as quais representam uma grande parte da atividade de agronegócio”, diz Elisheva. “Além disso, como as hierarquias familiares se sobrepõem às organizacionais, muitas vezes a geração de conflitos tende a trazer desafios não só no âmbito organizacional, mas também no aspecto pessoal.”

“Por isso, além de uma base bem-organizada de governança, é necessário um plano de sucessão no qual as habilidades, conhecimentos e interesses dos possíveis sucessores sejam respeitados”, ressalta a especialista.

Ela alerta ainda que a falta de uma estrutura de papéis e responsabilidades gera conflitos e coloca em risco o empreendimento. “Implementar uma estrutura de governança é simples e fácil desde que seja feita por pessoas competentes. Difícil e complicado mesmo é não ter governança, ter que decidir tudo na urgência, não se preparar para os desafios de mercado e acabar criando conflitos desnecessários, passando uma imagem negativa a possíveis investidores.”

Hoje o mercado conta com a possibilidade de contratação de conselheiros por hora, como a proposta de ‘C-level as a service’, explica Elisheva, o que facilita as startups que ainda não comportam executivos em seu quadro. “Assim, a implementação dos pilares de governança fica mais fácil, rápido e barato”, diz.

Dessa forma, como explicado pela profissional e reforçado por referências na área como o próprio IBGC, os benefícios da governança corporativa envolvem melhorias na gestão, facilidade de acesso a recursos financeiros, prevenção de fraudes e monitoramento de riscos.

Apesar de a pesquisa da PwC Brasil levar em conta apenas startups do agronegócio, Martinelli diz que as conclusões obtidas servem de parâmetro para outros tipos de empreendimentos. “O estudo é capaz de guiar qualquer tipo e nicho de empresa que está iniciando e, por consequência, os empreendedores podem adotar um posicionamento proativo”.

 

Originalmente publicada no site Valor