Publicado na CompliancePME em 2 de janeiro de 2024

O ano de 2023 registrou impactos negativos para a agenda da diversidade, com ondas de layoffs (demissões em massa realizadas no mercado) de gigantes de tecnologia atingindo principalmente mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+, pessoas com deficiência (PcD) e idosos.

Foram mais de 5,6 mil profissionais dispensados entre o início de 2022 e janeiro de 2023, segundo a plataforma Layoffs Brasil, banco de dados para analisar o impacto das demissões. Os números levantaram questionamentos sobre um possível retrocesso na agenda de diversidade e inclusão.

Para alguns especialistas, 2024 será um ano em que as empresas terão que continuar mostrando seu real comprometimento com a causa.

“Vai ser o ano da verdade. Um ano de depuração para separar quem estava nessa agenda pelo oba oba e quem tem compromissos sérios. Vai ser um ano para separar o joio do trigo”, afirma o sócio-fundador da consultoria Mais Diversidade, Ricardo Sales.

Polêmicas de 2023 devem ter impacto

O especialista aponta que 2023 foi um ano desafiador, com grandes empresas globais desacelerando os seus investimentos na pauta e com uma diminuição de vagas qualificadas para a diversidade.

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O cenário dos Estados Unidos também foi um ponto de preocupação. Ameaças de boicotes e críticas de grupos conservadores atingiram gigantes do varejo como a Disney e a Budweiser, da AB Inbev. A Target removeu produtos LGBT de sua marca Pride Collection em maio, após uma reação negativa de clientes. Também foram alvo a empresa dona da marca M&M’s e a Starbucks, acusada por sindicatos de restringir as decorações comemorativas do mês do orgulho LGBT.

Para Sales, o cenário demonstra que algumas marcas ainda enxergam que o engajamento com a pauta de diversidade é feito pontualmente. Com isso, ele aponta que 2024 será o ano de cobrar ações para além do Dia da Consciência Negra, do Mês do Orgulho LGBTQIA+ e do Dia das Mulheres, por exemplo. “Acho que essa é uma mudança: a pauta sai de um lugar meramente festivo e chega ao patamar de algo que faz parte do negócio.”

Para o co-fundador do Pacto de Promoção da Equidade Racial, Guibson Trindade, os cortes foram um sinal de alerta sem sombra de dúvidas. Ele, no entanto, destaca que enxerga que as companhias já veem a pauta como algo permanente, deixando para trás o debate se é algo que deve ser um ponto de atenção para as empresas ou não.

“As empresas começaram a colocar diversidade no planejamento estratégico. Mesmo com os cortes, que normalmente começam por essa área e menos investimentos, as políticas internas passaram a ser permanentes e robustas. Os projetos estão tendo continuidade.”

Após alguns casos de violação de direitos trabalhistas e apropriações culturais tomarem o noticiário ao longo deste ano, a cadeia de empresas fornecedoras entra na pauta de diversidade para 2024.

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Para a co-fundadora e consultora da Integra Diversidade, Keyllen Nieto, embora a lógica de “custo-benefício” ainda prevaleça, questionar as boas práticas deve se tornar um hábito cada vez mais comum.

“Estamos percebendo que, se antes não havia qualquer preocupação com a agenda ESG entre empresas e pessoas fornecedoras, agora o cenário se mostra mais favorável ao debate, especialmente após alguns casos evidenciarem a importância do tema em 2023 no Brasil e no mundo”, afirma.

Sales também vê essa mudança como uma tendência para o próximo ano. “É olhar como o tema da diversidade e inclusão aparece na sua rede de fornecedores e parceiros. Isso acontece de forma inicial em algumas empresas, mas nos próximos anos deve crescer ainda mais porque é uma forma de estimular a pequena e média a entrar nessa agenda.”

Além da inclusão, ele aponta que alguns incentivos, como dar um prazo menor para pagamento, deve ser uma tendência para incentivar essa adoção na cadeia produtiva, assim como a prestação de contas na pauta de diversidade deve se fortalecer em 2024 pressionada pelos investidores.

“A gente vai caminhar para o ponto de que se o fornecedor não tem boas práticas não se fecha negócio, mas esse ainda não é um ponto absoluto”, afirma, destacando que enxerga as políticas públicas sendo fortalecidas no próximo ano.

Essa é uma percepção também de Carlo Pereira, CEO do Pacto Global da ONU no Brasil. Ele destaca que a entidade, que conta com 1,9 mil empresas participantes, tem visto diversas companhias se movimentando para promover a adoção do ESG em sua cadeia de fornecedores, o que acelera a agenda na comunidade empresarial.

Pauta racial continuará a ser destaque

O número de brasileiros que se declaram pardos superou o total de brancos no Brasil em 2023 de forma inédita. Na nova fase de divulgação dos dados do Censo 2022, cerca de 92,1 milhões de brasileiros (45,3% da população) se declararam pardos, enquanto 88,2 milhões (43,5%) se declararam brancos. Na soma, pretos e pardos são 55,5%.

Essa foi a primeira vez que o número de pardos autodeclarados superaram o de brancos no país desde o início da série histórica em 1991. Para os especialistas, essa mudança reflete o trabalho feito por entidades para trabalhar o letramento racial, impulsionando essa pauta inclusive no universo corporativo.

Para a gerente sênior de relações institucionais do Mover, Luciene Rodrigues, as empresas avançaram relativamente nos últimos anos buscando consultorias para criar programas de letramento, trainees e de jovens aprendizes com foco em pessoas pretas e pardas.

A executiva destaca que a tendência é que em 2024 isso cresça ainda mais, com o crescimento também de números que ajudem a mapear a diversidade dentro das empresas, endereçando melhor as ações que devem ser feitas e as tornando mais propositivas.

A professora convidada da Fundação Dom Cabral e colunista na MIT Sloan Management Review, Grazi Mendes, é de uma opinião similar, apontando que, para ela, já se falou muito do porquê a diversidade é relevante para as empresas. Em 2024, ela vê uma mudança do foco para “como fazer”.

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“A gente precisa se organizar de forma estruturada para poder ampliar a diversidade de inclusão nos espaços”, afirma Mendes, também destacando que vê os números e indicadores como grandes protagonistas do próximo ano para ajudar a balizar as empresas.

Para Grazi Mendes, a pauta das mulheres, principalmente em cargos de liderança, deve ser um dos destaques em 2024. Para ela, houveram avanços neste ano no número de mulheres em cargos de liderança, segundo o que foi visto em diversos relatórios ESG (sigla em inglês para meio ambiente, social e governança), mas é preciso entender quais foram as mulheres que ascenderam.

“Foram todas? Quando vemos os relatórios, estamos falando de mulheres brancas e de classe média, não mulheres indígenas, pretas, trans e periféricas. Esse questionamento de quem está avançando precisa continuar existindo, para não trabalharmos essas pautas de formas individuais. Sem isso, não vão existir mudanças.”

Além da pauta de mulheres, Guibson Trindade, do Pacto pela Equidade Racial, aponta que um outro assunto que deve se manter em alta em 2024 são os desafios geracionais. “A gente já vê essa movimentação hoje, mas deve se fortalecer em 2024 pela entrada cada vez maior de pessoas da geração Z nas empresas. Além disso, a revisitação de gerações, a adição de colaboradores com vasta experiência também deve ser um tópico.”

A saúde mental dos colaboradores também deve ser uma temática que ganha força no S do ESG. “Para praticar o social, é preciso primeiro olhar para os seus colaboradores. Será que esse colaborador ganha um salário digno para se sustentar? É preciso pensar em diversos questionamentos para, de fato, promover um ambiente de trabalho mais saudável”, afirma o presidente do conselho do Instituto Capitalismo Consciente Brasil, Hugo Bethlem.

Outra tendência apontada é a pauta de sustentabilidade cada vez mais atrelada à social. A líder de sustentabilidade e clima da Deloitte, Maria Emília Peres, explica que com a ascensão das discussões sobre justiça climática, fala-se cada vez mais da necessidade de regionalizar essas discussões e dar voz a minorias, inclusive na pauta de meio ambiente.

“Quando você pensa em operacionalizar todo o potencial do hidrogênio verde da biomassa, vem a discussão das comunidades tradicionais e dessa inclusão das pessoas da Amazônia, do Ceará”, explica Peres.

Publicada originalmente no Estadão