Publicado na CompliancePME em 21 de agosto de 2023

Por Sonia Consiglio

 

O ser humano é movido por definições, regras, orientações. Uma das principais perguntas que me fazem, por exemplo, é qual das três dimensões da sigla ESG(E = ambiental, S = social e G = governança) é a mais importante. Primeiro, lembro que prefiro usar EESG, incluindo o “E” de econômico nessa conversa, que é o conceito completo de sustentabilidade. E respondo à questão com outra: por que eleger uma dimensão se o desafio é a integração?

Ponto feito, há, no entanto, que se destacar uma das letras por ser a base das demais. Estou me referindo ao “G”, de governança corporativa. O nome é pomposo e pode assustar. Mas, no fim, nada mais é do que a forma como fazemos as coisas, como nos organizamos, onde e como tomamos decisões.

Na recém-lançada 6ª edição do “Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa” do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), governança é um “Movimento intencional cujo objetivo é melhorar o processo decisório, o desempenho, a reputação, o retorno econômico e a longevidade de suas operações”. Isso é fundamental: ser intencional, com uma liderança que entenda, valorize e pratique tudo o que está no papel.

Esta edição do código está concisa, menos prescritiva e mais principiológica e acessível a todos os públicos. Ficou agradável de ler; o projeto visual direciona a atenção rapidamente para as mensagens essenciais. O seu desenvolvimento levou quase dois anos, numa lógica de colaboração e construção coletiva muito interessante.

No processo, foi feito um benchmark com 15 referências internacionais. Entre os temas mais frequentemente citados estavam sustentabilidade/ESG, stakeholders, diversidade e inclusão, ética e propósito. É o novo mundo se apresentando clara e inequivocamente. Como consequência dessas análises, no documento brasileiro, ‘Diversidade’ ganhou espaço e foi reforçada a importância de as organizações identificarem seu propósito, ou seja, sua razão de existir: “O propósito direciona a estratégia e fundamenta a cultura da organização, servindo de bússola para um processo decisório estratégico ancorado em princípios éticos”. Meio ambiente também foi enfatizado: na versão anterior, havia sete menções; agora são 21.

O código relaciona cinco princípios, que permeiam as práticas apresentadas: Integridade (novo princípio), Transparência, Equidade, Responsabilização (accountability) e Sustentabilidade – que na edição anterior se chamava “Responsabilidade Corporativa”. A coordenadora do trabalho, a incrível profissional e ser humano, Cristiana Pereira, explica essa mudança: “’Responsabilidade Corporativa’ tinha uma abordagem mais para dentro da empresa e percebemos que precisávamos ampliar esse olhar e sermos contundentes nas questões ESG e na interdependência entre todas as suas dimensões”. Achei que ficou muito boa a redação do princípio, pois representa a perspectiva ampla da sustentabilidade: “Zelar pela viabilidade econômico-financeira da organização, reduzir as externalidades negativas de seus negócios e operações, e aumentar as positivas, levando em consideração, no seu modelo de negócios, os diversos capitais (financeiro, manufaturado, intelectual, humano, social, natural, reputacional) no curto, médio e longo prazos. Nessa perspectiva, compreender que as organizações atuam em uma relação de interdependência com os ecossistemas social, econômico e ambiental, fortalecendo seu protagonismo e suas responsabilidades perante a sociedade”.

O conselho de administração é ator-chave nesse contexto. Segundo o código, esse colegiado “exerce o papel de guardião do propósito, dos valores, do objeto social da organização e de seu sistema de governança”. É no âmbito do conselho que se estabelece a estratégia, a visão de futuro da empresa. E, para melhor cumprir essa desafiadora missão, o IBGC recomenda foco em: Criação de Valor Sustentável de Longo Prazo, Cultura e Pessoas, Estratégia, Governança Corporativa e Supervisão. Vejam essa parte na definição do primeiro tema: “As escolhas estratégicas do conselho devem contemplar, de maneira integrada, a agenda da sustentabilidade (aspectos econômico, social e ambiental) e da inovação”. Para enquadrar e olhar todo dia!

Pesquisas mostram que os conselhos estão mais e mais sob escrutínio. Na 8ª edição do “Global Corporate Governance Trends for 2023”, da Russell Reynolds Associate, que foi baseada em entrevistas com investidores institucionais, ativistas de acionistas, gestores de fundos de pensão, reguladores e demais agentes de mercado, uma das três tendências apontadas é: “Ceticismo dos investidores sobre a qualidade do conselho”, seguida de “CEOs na mira”, que mostra que os líderes, seja de que instância forem, estão sob análise constante. A tendência que compõe a tríade é: “Amadurecimento dos programas e divulgações ESG”. Vivi pra ver!!

Se o mundo cobra novas práticas e posturas (ainda bem!), temos que nos instrumentalizar, e o novo código do IBGC é crucial nisso. O que mais marcou a Cristiana Pereira na condução da revisão foi a genuína disposição das pessoas envolvidas em contribuir. Ah… como é bom ver que pessoas seguem, na sua grande maioria, sendo pessoas e querendo o bem comum. “O código é uma obra viva, precisa ser lido e, principalmente, vivido”, ela pede ao final da nossa entrevista. Então, que sejamos agentes da melhor governança corporativa, nos pequenos e grandes gestos, nas pequenas e grandes decisões.

Sonia Consiglio é SDG Pioneer pelo Pacto Global da ONU e especialista em Sustentabilidade
Publicada originalmente no sute Valor Invest