Por Amanda Lourenço, associada da área de Societário e M&A do VBSO Advogados
Durante muito tempo, a governança corporativaÉ o sistema pelo qual as empresas e demais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e... foi tratada como um tema restrito a conselhos de administração, investidores e reguladores. Um conjunto de práticas voltadas a organizar o exercício do poder dentro das empresas, reduzir conflitos de interesse e garantir transparênciaÉ o que se pode ver através, que é evidente ou que se deixa transparecer. É a virtude que impede a ocultação de alguma vantagem pessoal. na gestão. Esse núcleo conceitual permanece essencial, mas o contexto em que se insere mudou radicalmente. Hoje, a governança é testada em tempo real por stakeholdersPessoas ou grupos de pessoas com algum grau de envolvimento ou interesse em uma organização ou entidade, tais como empregados, clientes, fornecedores ou cidadãos que podem ser afetados por determinada... conectados, vocalizados e dispostos a pressionar marcas nas redes sociais, muitas vezes em meio a crises reputacionais que se originam e se propagam no ambiente digital.
De modo geral, a governança corporativa pode ser entendida como o sistema pelo qual as organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo as relações entre sócios, conselhos, diretoria e demais partes interessadas, com o objetivo de alinhar interesses, preservar valor no longo prazo e assegurar a perenidade dos negócios, a partir de princípios como transparência, equidadeCaracteriza-se pelo tratamento justo e isonômico de todos, levando em consideração seus direitos, deveres, necessidades, interesses e expectativas. Disponível em: https://www.ibgc.org.br/conhecimento/governanca-corporativa acesso em:06/04/2021..., prestação de contas e responsabilidade corporativaOs agentes de governança devem zelar pela viabilidade econômico-financeira das organizações, reduzir as externalidades negativas de seus negócios e suas operações e aumentar as positivas, levando em consideração, no seu....
O que mudou de forma estrutural nas últimas décadas foi o ambiente em que essas decisões são tomadas. A ascensão das redes sociais transformou a comunicação corporativa e deslocou o controle da narrativa institucional, fazendo com que a reputação, antes construída sobretudo por relatórios, comunicados oficiais e mídia tradicional, passe a ser moldada também – e muitas vezes principalmente – por comentários, vídeos, campanhas digitais, boicotes online e movimentos de ativismo que ganham escala em questão de horas.
As redes sociais se consolidaram como espaços de mobilização coletiva e fiscalização difusa. Consumidores, colaboradores, investidores e grupos organizados passaram a questionar decisões empresariais, comparar práticas e exigir posicionamentos públicos, ampliando a pressão dos stakeholders e acrescentando um novo componente à governança corporativa: a necessidade de respostas rápidas, consistentes e alinhadas a valorescrenças julgadas corretas em relação a interações com outras pessoas ou empresas. que vão além do resultado financeiro.
Nesse cenário, crises reputacionais digitais deixaram de ser episódios pontuais. Qualquer decisão corporativa pode ser interpretada, recortada e amplificada, muitas vezes fora de contexto, atingindo públicos diversos. Esse riscoQuantificação e qualificação da incerteza, tanto no que diz respeito a perdas quanto aos ganhos, com relação aos acontecimentos planejados. É um desvio em relação ao esperado. É uma incerteza... se intensifica na chamada era da pós-verdade, em que fatos objetivos disputam espaço com emoções, crenças pessoais e narrativas construídas para gerar engajamento. Informações verdadeiras e falsas circulam com a mesma velocidade, criando conjecturas capazes de comprometer seriamente a imagem de uma empresa, independentemente da veracidade dos acontecimentos.
Os dados ajudam a dimensionar o desafio. Segundo o Reputation Dividend Report 2024, a reputação responde por cerca de 28% da capitalização das empresas do índice S&P 500, o equivalente a aproximadamente US$ 11,9 trilhões em valor de mercado.[3] Em um ambiente hiperconectado, crises mal geridas tendem a deixar marcas duradouras, o que impõe aos conselhos de administração uma governança mais atenta às dinâmicas sociais, digitais e comportamentais, além dos aspectos financeiros e regulatórios.
Ao mesmo tempo, o ativismo e as redes sociais não devem ser vistos apenas como ameaças. Se bem compreendidos, eles também podem funcionar como instrumentos de fortalecimento da governança corporativa. A comunicação transparente, a escuta ativa e a disposição para o diálogo ampliam a transparência e a prestação de contas, pilares centrais das boas práticas de governança.
Isso exige, contudo, uma mudança de mentalidade. As organizações precisam investir em monitoramento contínuo, protocolos de resposta e comunicação integrada entre diferentes áreas, além de antecipar temas sensíveis, como diversidade, sustentabilidade, éticaConjunto de ações normativas que guia o comportamento de uma organização ou de um indivíduo, estabelecendo boas relações sociais. A ética é o estudo da moral., impacto ambiental e governança de dados, como parte da estratégia de longo prazo. Transformar pressão externa em aprendizado e evolução organizacional pode se tornar um diferencial competitivo relevante.
A governança corporativa, portanto, não perdeu sua essência. Pelo contrário, tornou-se ainda mais necessária. O que mudou foi o palco em que ela se manifesta. Em um mundo hiperconectado, em que a reputação se constrói e se destrói em rede, governar bem significa também saber comunicar, ouvir, responder e agir com consistência. As empresas que compreenderem essa dinâmica e estruturarem um diálogo genuíno com seus stakeholders estarão mais preparadas para atravessar crises, gerar valor sustentável e se manter relevantes na nova era digital.