Publicado na CompliancePME em 17 de outubro de 2023

Mais de uma década atrás, pouco se falava em ESG, e inovação estava longe do hype atual. Hoje, são temas fundamentais no mundo corporativo. E por isso estão entre os aspectos avaliados na pesquisa “Época Negócios 360º”, que elege as melhores empresas do país, feito em parceria com a Fundação Dom Cabral e com a colaboração de Boa Vista SCPC a partir de informações fornecidas por mais de 400 grandes companhias.

O ranking, em sua 12ª edição, procura ir além dos tradicionais levantamentos, mais pautados pelos resultados financeiros. As companhias são avaliadas em seis desafios: inovação, visão de futuro, ESG/governança, ESG/ socioambiental, pessoas e desempenho financeiro.

Este caderno traz os principais resultados do anuário 360º da “Época Negócios”, publicação que faz parte do Valor Econômico. É um trabalho minucioso sobre as empresas que operam no Brasil, com dados que contribuem para a compreensão da economia nacional, disponíveis para o público do Valor.

Neste ano, pela primeira vez, ESG/governança teve o melhor desempenho. Em 100 pontos possíveis, a média das 410 participantes foi de 61 pontos; das TOP 30, 80; e das TOP 10, 85 pontos. Esse destaque pode ser consequência de tempos instáveis pós- pandemia, com o cenário brasileiro e mundial confuso, agravado pela guerra na Ucrânia. E com reflexos nos resultados das 500 maiores companhias. Mas o fato é que a governança se consolidou nas melhores empresas desta edição. Na Suzano, campeã de papel e celulose, do desafio desempenho financeiro e Empresa do Ano, a governança corporativa vem da “evolução ao longo do tempo e mostra um grande dinamismo”, diz Walter Schalka, presidente da companhia. “Temos um conselho que está sempre inovando, com maioria independente e 33% de participação feminina.”

Diversidade é um tema caro às melhores e, na pesquisa, foi pedido um detalhamento maior. “Percebe-se a necessidade de avançar muito em alguns aspectos”, diz a estatística Ana Denise Ceolin, da Integratum, a quem coube aplicar a pesquisa, processar os dados e fazer análises das práticas de gestão das empresas de maior destaque. “Das 410 participantes, 300 têm conselho de administração e 227 registram mulheres entre os integrantes, uma presença até razoável. Mas só 23 contam com negros, e 8 com pessoas LGBTQI+.” Na diretoria executiva, apenas em 6% das pesquisadas as mulheres são CEO.

A maioria tem metas para maturidade digital e mantém equipes exclusivas

A B3, de serviços financeiros, a melhor entre as 410 participantes em ESG/governança, tem a responsabilidade de fazer valer para si princípios estabelecidos por ela mesma, como berço do Novo Mercado, segmento onde são negociadas ações de empresas comprometidas com governança. E tem de aplicar os mesmos princípios a empresas adquiridas para diversificar as operações. “Precisamos adequar controladas e coligadas ao nível de governança e segurança da B3, para que elas também sejam um modelo, mas de acordo com as suas particularidades”, diz Eduardo Farias, diretor-executivo de governança, gestão integrada e segurança cibernética.

Um caso de sucesso consolidado é o da Lojas Renner, campeã de varejo. Ela estreou em 2005 no Novo Mercado da B3, quando a então controladora, a J.C. Penney, vendeu todas as suas ações. Surgia a primeira corporação brasileira sem controlador. Desde 2018, as ações são negociadas também na bolsa de Nova York por meio de American Depositary Receipts (ADRs). Como não tem controlador, precisa ter estrutura forte. A maneira de ser eficiente para clientes e acionistas tem de ser sustentável em todos os aspectos “e pautada em transparência nas questões de governança, devido à própria configuração da empresa”, segundo o presidente, Fabio Faccio.

Na pesquisa, inovação aparece no lado oposto, com o menor número de pontos entre os desafios. Uma questão deixou algumas empresas sem resposta: quanto da receita líquida veio de inovação e, num desdobramento, de onde exatamente veio. “Responder às duas questões significa obter o equivalente a 20% do total de pontos possíveis”, diz Ceolin. Mas só 146 responderam à pergunta inicial, e 108 ao desdobramento.

Percebe-se a necessidade de avançar muito em aspectos [de diversidade]”

— Ana Ceolin

Não há desinteresse das empresas em relação ao tema, ao contrário. Do total, 38% – ou 62%, no caso das TOP 30 – investem 2% ou mais da receita líquida na área; 51% de todas (86% nas TOP 30) têm plataformas de inovação aberta; 61% (93% das TOP 30) usam e/ou mantêm rede de relacionamento com startups.

Em maturidade digital, as empresas parecem cada vez mais evoluídas – 66% têm metas e 63% orçamentos estabelecidos na área, 61% já mantêm equipes exclusivas e 61% alinham a estratégia aí definida a todos os departamentos do negócio. Inteligência artificial (IA) entra na pauta. A Stefanini, campeã no desafio inovação, é a melhor no tema. IA melhora a eficiência operacional, a personalização dos serviços e a experiência do cliente, diz Marco Stefanini, presidente da empresa. “E libera as equipes para tarefas mais complexas e criativas.”

Na Gerdau, campeã de mineração e siderurgia e do desafio ESG/sustentabilidade, segundo o presidente, Gustavo Werneck, a IA reflete a transformação digital do grupo e o foco em iniciativas e soluções de indústria 4.0. Na unidade de Ouro Branco (MG), por exemplo, a empresa cria, com base no ambiente físico, um gêmeo virtual e por ele analisa qual é o melhor tipo de aço a ser produzido a cada momento.

Ao testar e inovar com IA, a Ambev, campeã de alimentos e bebidas, chegou a produtos como o Zé Express, uma geladeira inteligente para condomínios, e o Flow Voice, ferramenta para identificar pela voz o nível de consumo de álcool. Na Natura Cosméticos, campeã de indústria farmacêutica e cosméticos, o uso de IA levou à tecnologia de diagnóstico capilar; com um aplicativo, a câmera do smartphone e uma lente portátil, o método relaciona a imagem da textura do fio de cabelo com o grau de dano e indica o tratamento adequado. “A IA pode recomendar mais de 15 mil combinações de produtos da marca”, diz João Paulo Ferreira, presidente da empresa.

(Colaboraram Andrea Martins, Denyse Godoy, Márcio Ferrari, Paulo Vasconcellos e Rosangela Capozoli)

Originalmente publicada no Valor