Publicado na CompliancePME em 23 de fevereiro de 2024

Dada a grande necessidade de dinheiro para frear o aquecimento global em até 1,5ºC, meta alinhada ao Acordo de Paris, o setor financeiro e o mercado de capitais podem ter um papel relevante para acelerar a agenda, no mundo e também no Brasil.
Segundo a Agência Internacional de Energia, apenas para promover a transição para energias limpas, os investimentos devem chegar a US$ 4,5 bilhões por ano até 2030. Mas, o último relatório de Tendências de investimento na transição energética da empresa de análise de dados BloombergNEF, mostrou que em 2023 o volume alocado na tese foi de US$ 1,77 trilhão, aquém do necessário, ainda que tenha aumentado 17% em comparação a 2022.

Porém, ainda falta uma percepção mais clara por parte do investidor de que a tese climática e de boas práticas ESG (ambiental, social e de governança corporativa) tem valor econômico e não é só uma questão de propósito ou filantropia.

“O principal desafio para esse segmento é o investidor tangibilizar valor agregado. Perceber, por exemplo, se com a gestão de risco dos ativos analisando riscos ESG é um instrumento que trará um melhor gerenciamento de alocação de risco como um todo”, comenta Carlos André, presidente da Anbima, associação do mercado de capitais, durante evento organizado pela entidade com jornalistas, em São Paulo
Para ele, as empresas também precisam perceber que investir em práticas sustentáveis é uma vantagem comparativa ou que ao optar por emitir títulos de dívida verde, por exemplo, terá taxas de juros mais baixas ou acesso a um recurso que não a cessaria de outro modo. “O mercado precisa cristalizar um pouco mais os benefícios”, diz.

O mesmo raciocínio vale para o movimento de stewardship, prática adotada por alguns investidores de ativamente ajudar as companhias nas quais têm participação acionária a implementarem boas práticas de governança e socioambientais. “A pergunta é o quanto o meu cliente vê de captura de valor desse engajamento, se vê benefícios e não apenas custos”, pontua André.

Para isso, aponta André, é importante que haja padronização das informações, de modo que seja possível comparar situações e tirar conclusões.

Segundo Guilherme Maranhão, presidente do fórum de Mercado de Capitais, o crescimento do mercado de dívida verde também depende de os benefícios esperados de investimentos feitos anos atrás se materializasse para serem mais atrativos ao mercado. Ainda assim, ele acredita que o mercado deve avançar este ano, mas não no mesmo ritmo da pandemia. “O interesse era maior na pandemia. As empresas preocupadas com a agenda continuam [se valendo de emissões verdes], mas as demais precisam de um empurrão”, diz.
Giuliano de Marchi, diretor da Anbima, comenta ainda que a maioria dos gestores no Brasil já está incluindo filtros ESG em suas seleções dos ativos, o que acaba influenciando nos produtos. “Mas nos produtos dedicados [a ESG], os gestores ainda não percebem que agrega valor”, comenta.

Carlos Takahashi, vice-presidente da Anbima e quem comanda o grupo consultivo de sustentabilidade, reitera que, de fato, a fotografia do mercado de capitais mostra que o volume de recursos para essas teses não avançou como o esperado. No caso de dívida corporativa sustentável, até caiu. Porém, afirma que a regulação no Brasil “melhorou muito”. A própria Anbima, lembra, já tem uma publicação de boas práticas para emissores e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM ) tornou obrigatória a divulgação de dados de sustentabilidade junto com os contábeis e financeiros a partir de 2026, seguindo diretrizes internacionais da IFRS.

“Empresas têm que se preparar para este momento. O próprio governo tem colocado a pauta na agenda, com a taxonomia verde e a regulação do mercado de carbono em andamento “, diz.
Takahashi é enfático ao dizer que esses movimentos formam um arcabouço importante para o mercado de investimentos verdes se desenvolver. Destaca que as regulações podem trazer mais transparência e comparabilidade. “Temos que avançar pois a regulamentação está para acontecer”, diz.

Segundo dados compilados pela plataforma Bloomberg, a emissão de dívida corporativa sustentável ultrapassou US$ 1 trilhão em 2023, 3% acima de 2022, mas menor do que em 2021, quando o segmento havia batido um recorde de US$ 1,1 trilhão. O dado inclui quatro tipos de dívida: green bonds, social bonds, sustainability-linked bonds e sustainability bonds, sustainable bonds.
O relatório também aponta que houve desaceleração das emissões de dívida com rótulo sustentável no decorrer do ano passado: no primeiro trimestre, se aproximou de US$ 300 bilhões; no segundo, registrou US$275 bilhões; no terceiro, cerca de US$ 175 bilhões; e, no último, as emissões somaram aproximadamente US$ 165 bilhões.

No Brasil, dados da NINT mostram que, em 2023, o mercado de dívida corporativa com rótulo sustentável no Brasil somou de R$ 66 bilhões, em 62 operações. O valor inclui a emissão de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5 bilhões) de título de dívida soberana verde do governo brasileiro.
Em relação aos fundos de investimentos, dados da plataforma Morningstar mostram que, no último trimestre de 2023, os fundos sustentáveis registraram saída líquida de US$ 2,5 bilhões, entrando pela primeira vez em território negativo. Enquanto os fundos do mercado americano tiveram saída líquida de US$ 5 bilhões, os fundos europeus seguem resilientes, atraindo US$ 3,3 bilhões no período. No último trimestre, os ativos totais dos fundos sustentáveis bateu US$ 3 trilhões, globalmente. No ano, o volume financeiro aumentou 8% e 120 novos fundos chegaram às prateleiras.

No Brasil, pela nova classificação de fundos da própria Anbima, até o fim do ano passado, eram cerca de R$ 10,5 bilhões alocados em 59 fundos sustentáveis e 30 fundos que integram em suas estratégias fatores ESG em sua estratégia de alocação dos recursos.
A taxa de juros alta em vários países, incluindo o Brasil, acabou contribuindo para a desaceleração do ritmo de crescimento dos mercados de dívida corporativa e ações nos últimos dois anos. Outra dificuldade é a comprovação de que investir em ESG não é deixar de lado lucro, ou seja, histórico de sucesso financeiro dos produtos.

 

Publicada originalmente no site do Valor