Entre as competências mais importantes para as lideranças, sem dúvida, a capacidade de ouvir é uma delas. Ouvir de verdade, prestar atenção no outro, digerir e compreender o que seu interlocutor está dizendo. Parece um tema tão óbvio, sobre o qual os maiores especialistas em gestão falam há décadas, mas é impressionante como as pessoas ainda insistem em prestar muito mais atenção em suas próprias ideias do que em parar para ouvir o próximo.

A escuta ativa não apenas nos torna líderes melhores, mas também impacta positivamente em todas as relações – casamento, maternidade ou paternidade, as amizades. Ouvir demonstra confiança, interesse, empatia e respeito pelo outro, e as pessoas tendem a se aproximar quando essa confiança é estabelecida. É a regra de ouro para a resolução de conflitos. Os indivíduos tendem a ser mais transparentes e abertos em uma conversa quando se sentem verdadeiramente ouvidos.

Ao escutar atentamente, muitas vezes nos abrimos para questionar as nossas verdades. Estimulamos novas ideias, aprendemos, vislumbramos soluções diferentes para os problemas. Reduzimos ruídos de comunicação e sentimentos negativos.

Pesquisadores afirmam que ouvir bem e de forma frequente é uma característica que revela maior potencial de liderança de um indivíduo do que a sua inteligência ou personalidade. Pessoas com essa habilidade tendem a performar melhor no trabalho e a apresentar níveis mais altos de bem-estar, assim como cultivam relacionamentos verdadeiros e de maior significado.

Mas se os benefícios são tantos, por que essa habilidade é tão rara no mundo profissional?

Sabemos que alguns de nós possuem mais capacidade de ouvir e serem empáticos do que outros, por sua personalidade, mas a ciência comprova que essas habilidades são possíveis, sim, de serem aprendidas. Em um artigo recente na revista “Fast Company”, o psicólogo organizacional argentino Tomas Chamorro-Premuzic, professor da Universidade de Columbia, traz algumas dicas de como ir além do básico conselho “fique quieto, ouça e repita” para quem quer exercitar o ouvir.
A primeira dica é: tenha foco. Um motivo simples que dificulta a escuta das pessoas, mesmo quando elas possuem a boa intenção de fazê-lo, é a atenção dividida com distrações, estresse, preocupações e as multitarefas que nosso cérebro insiste em nos cobrar o tempo todo. Se você genuinamente quer ser melhor ouvinte, você precisa dar foco e atenção exclusiva para o outro.
A segunda dica é exercer a empatia de forma precisa e sincera, exercitando a compaixão e racionalmente sendo generoso com o próximo.

Outro conselho interessante do psicólogo é o auto-controle – interrupções impulsivas são uma ameaça à escuta ativa. Esperar o seu interlocutor terminar de falar, e ainda contar dois ou três segundos depois que ele ficar em silêncio, é um exercício simples para manter os sentimentos e pensamentos sob controle.

Por fim, diz ele, mesmo que se consiga realizar as três dicas, é ainda importante comunicar à outra pessoa que você estava ouvindo. Quando chegar sua vez de falar, incorpore a perspectiva e as referências da outra pessoa, e reaja a seus argumentos e narrativas. Não adianta ficar apenas planejando seu discurso e esperando a sua vez de falar – se você de fato ouviu, será capaz de incluir o outro em sua história.

Experimente fazer esses exercícios. Tenho certeza de que fará uma grande diferença em seus relacionamentos.
Vicky Bloch é fundadora da Vicky Bloch Associados, professora do IBGC, da FIA e membro de conselhos de administração e consultivos.

 

Originalmente publicado no Valor Econômico

Publicado na CompliancePME em 2 de junho de 2022