Apesar de operarem em um ambiente marcado por restrições financeiras, burocracia e desconfiança pública, as organizações da sociedade civil no Brasil estão confiantes com o cenário daqui em diante, quando esperam aumento da demanda por seus serviços. É o que revela o Panorama das ONGs – capítulo Brasil, produzido pelo IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, em parceria com a Charities Aid Foundation (CAF), como parte do World Giving Report 2025.
O relatório conclui que o setor social brasileiro enfrenta obstáculos relevantes — especialmente financeiros, de reputação e de gestão de pessoas —, mas apresenta sinais claros de resiliência, diversidade de financiamento e fortalecimento das redes de colaboração. O avanço da cultura de doação, a ampliação do acesso a recursos livres, a profissionalização e o uso estratégico da tecnologia aparecem como vetores centrais para ampliar a sustentabilidade e a legitimidade das organizações no longo prazo.
O levantamento ouviu organizações em vários países, incluindo 170 ONGs brasileiras. As entrevistas foram conduzidas entre março e junho de 2025. O relatório avaliou a resiliência das ONGs em seis dimensões: propósito, saúde financeira e operacional, evidências de impacto, pessoas e cultura, parcerias, além de contexto e percepção pública.
“Vivemos um período de grandes tensões, com o agravamento de conflitos, crises econômicas que ampliam desigualdades e intensificação de eventos climáticos extremos. O estudo chama atenção ao aumento da demanda pela atuação das ONGs no mundo e à necessidade de fortalecê-las para enfrentar tais desafios”, comenta Luisa Lima, Gerente de Comunicação do IDIS.
Para a executiva, o Panorama das ONGs é relevante por apresentar um mapa para a resiliência das nossas organizações da sociedade civil. Ela lembra que, no Brasil, os principais desafios estão relacionados à sustentabilidade financeira e pessoas, com aspectos relacionados à atração e retenção de talentos, além da promoção do bem-estar. “As ONGs devem investir nestas áreas, mas também financiadores e poder público podem adotar novas práticas para endereçar estas questões”, diz Luisa, do IDIS.
Sustentabilidade financeira
A sustentabilidade financeira aparece como o maior desafio para o terceiro setor, tanto no Brasil quanto no cenário internacional. No recorte brasileiro, 66% das organizações apontam o tema como uma das questões mais urgentes. Também aparecem com peso relevante a necessidade de ampliar a conscientização sobre o trabalho realizado (43%) e de melhorar a mensuração e comunicação de impacto (36%), elementos diretamente ligados à captação de recursos e à construção de reputação.
Os doadores individuais aparecem como a principal fonte de recursos, reforçando a importância de fortalecer a cultura de doação no país, na visão das entidades que assinam o documento.
O último relatório sobre filantropia no Brasil realizado pela Ipsos a pedido do IDIS, mostrou que o valor estimado do volume de doações, em 2024, foi de R$ 24,3 bilhões, superior aos R$ 14,8 bilhões registrados em 2022 (corrigidos aos valorescrenças julgadas corretas em relação a interações com outras pessoas ou empresas. atuais para a comparação). A mediana das doações por pessoa passou de R$ 300 para R$ 480 ao ano. Quem doa, prefere escolher com cuidado as causas (86%) e buscar informações antes de doar (83%).
O estudo recém-publicado indica, por outro lado, um ponto positivo relevante: a diversidade de fontes de receita. Em média, as ONGs brasileiras contam com 3,9 fontes de financiamento, o que reduz a dependência excessiva de um único financiador e aumenta a capacidade de absorver choques quando há mudanças de estratégia de doadores.
Cerca de metade das ONGs brasileiras afirma sentir-se confortável com a diversidade de suas fontes de receita, um nível de segurança superior à média global. Ainda assim, a maioria relata dificuldades para alcançar seus objetivos por conta, por exemplo, do equilíbrio entre recursos restritos e não restritos, além da burocracia exigida por financiadores — especialmente do setor público.
Os recursos restritos são fundos ou ativos cuja utilização é limitada a propósitos específicos ou períodos de tempo determinados pelo doador. Já os irrestritos podem ser usados ao critério da organização. A percepção de que fundações privadas tendem a priorizar projetos próprios também atrapalha.
Um representante de ONG ouvido na pesquisa resume o cenário: “O terceiro setor enfrenta uma situação precária devido a uma série de desafios que comprometem sua sustentabilidade e impacto social. Uma delas é a redução do financiamento (…). Além disso, a burocracia e a regulação excessiva impõem obstáculos à captação de fundos (…). Por fim, há um aumento significativo na demanda pelos serviços das organizações (…), mas os recursos disponíveis não acompanham essa necessidade.”
Mesmo diante dos desafios, o estudo aponta que as lideranças das ONGs tendem a ser mais otimistas em relação às próprias organizações do que ao setor como um todo, reconhecendo sua capacidade de gerar impacto e responder à demanda crescente.
Entre as avaliações mais altas das organizações brasileiras estão a aptidão financeira e operacional e a qualidade das redes de relacionamento.
A expectativa do setor para este e os próximos anos é otimista. Globalmente, 78% das organizações afirmam que houve aumento na demanda por serviços, e 83% esperam nova alta no próximo período. No Brasil, entre aquelas que projetam aumento da demanda, 44% se declaram “muito confiantes” de que conseguirão atendê-la, patamar que representa o dobro da média global, de 22%.
O relatório também destaca o avanço dos fundos patrimoniais (endowments) como mecanismo emergente de resiliência, impulsionado pela regulamentação aprovada em 2019.
A maior parte do financiamento das ONGs brasileiras é doméstica. Apenas uma em cada cinco organizações afirma ter equilíbrio entre recursos nacionais e internacionais ou
predominância de capital externo. De acordo com os autores, isso reduz a exposição direta às mudanças recentes nas políticas de cooperação de governos dos Estados Unidos e da Europa, embora o impacto seja mais sensível em áreas como meio ambiente, proteção de comunidades indígenas e direitos humanosConjunto de princípios universais que garantem dignidade, liberdade, igualdade e proteção a todas as pessoas — fundamento ético do pilar social do ESG..
Na avaliação de Paula Jancso Fabiani, CEOChief Executive Officer (CEO): O Chefe Executivo da empresa, conhecido também como Diretor Executivo, Diretor Geral e Diretor Presidente ou Presidente. do IDIS, o futuro do setor passa pela capacidade de adaptação e articulação. “O futuro do setor depende da capacidade de inovar, fortalecer redes de colaboração, influenciar políticas públicas e comunicar claramente seu propósito e impacto”, afirma.
Embora a maioria das ONGs brasileiras declare ter clareza sobre seu propósito, a dimensão de pessoas e a cultura é apontada como a mais desafiadora — e é o único indicador em que o Brasil aparece abaixo da média global.
A dificuldade de recrutar, reter profissionais e cuidar do bem-estar das equipes é um problema recorrente. Globalmente, 72% das ONGs relatam dificuldades para contratar as pessoas certas; no Brasil, o índice é semelhante, em 70%. Reter os talentos e cuidar do bem-estar das equipes também são vistos como desafios.
O relatório também revela uma percepção polarizada sobre a saúde do setor no Brasil como um todo. Parte das lideranças reconhece avanços, como o fortalecimento de parcerias com o setor público e privado, maior visibilidade e impacto social.
Outra parcela, contudo, aponta entraves estruturais, como baixo reconhecimento público, associação do terceiro setor a narrativas de corrupçãoEtimologicamente, o termo corrupção surgiu a partir do latim corruptus, que significa o "ato de quebrar aos pedaços", ou seja, decompor e deteriorar algo. É o ato ou efeito de... devido a alguns escândalos do passado, concentração de investimentos em poucas organizações e déficit de profissionalização.
Segundo a pesquisa de doação da Ipsos/IDIs divulgada ano passado, 49% de doadores já deixaram de doar após notícias negativas sobre organizações, o que evidencia a importância da confiança como um ativo essencial para o setor. A fidelização também apresentou queda: apenas 49% mantêm o hábito de doar para as mesmas instituições todos os anos – em 2015, eram 69%.
Nesse contexto, o estudo aponta profissionalização, transparênciaÉ o que se pode ver através, que é evidente ou que se deixa transparecer. É a virtude que impede a ocultação de alguma vantagem pessoal. e uso de tecnologia como caminhos para fortalecer a confiança de doadores, parceiros e ampliar também a legitimidade pública.
Parceria com Setor Público
A relação entre ONGs e poder público é descrita como um “casamento conturbado”. Uma ampla maioria dos líderes brasileiros (91%) concorda que o Estado depende das organizações para prestar serviços que não consegue ou não quer financiar — percentual bem acima da média global (66%). Ao mesmo tempo, os incentivos governamentais são percebidos como baixos, e há incertezas sobre o ambiente regulatório.
Metade dos líderes (51%) não consegue afirmar se a influência do poder público sobre o setor é positiva ou negativa. Embora o espaço de participação da sociedade civil tenha crescido, as demandas das ONGs ainda aparecem pouco representadas em processos decisórios, como no debate da reforma tributária.
As percepções sobre a eficácia da regulação também são divididas, variando conforme a área de atuação e o grau de dependência de políticas públicas.