O aprimoramento constante das políticas de “compliance” (conformidade) nas empresas públicas e privadas é fundamental para fazer frente a questões relevantes na própria sociedade brasileira. A análise partiu de especialistas que se reuniram nesta terça-feira (26) nos Estúdios Globo, zona sudoeste do Rio, para debater a questão da integridade em diferentes companhias. Na visão deles, os programas de governança interna são importantes não apenas para as companhias, mas também como forma de promover mudanças que contribuem para o fortalecimento institucional do país.

“A conta que deve ser entregue é que estamos lutando para mudar a vida das pessoas”, afirmou a ministra Edilene Lobo, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Não vejo saída individual para grandes questões que envolvem crises éticas da humanidade”, acrescentou. E citou a importância na divulgação de práticas que contribuem para fortalecer a própria democracia brasileira.

A diretora de compliance e riscos do Grupo Globo, Carolina Junqueira, destacou a “responsabilidade institucional” da empresa na área. “Assumir o processo de liderança [na política de compliance] no audiovisual é muito importante”, afirmou. E acrescentou que o Grupo Globo conseguiu, desde 2015, quando começou o programa de integridade da empresa, “forjar um profissional de compliance moderno”.

“Acreditamos muito nessa liderança do Grupo Globo no setor e na sociedade como um todo, então [o movimento] é assumir essa responsabilidade social que a empresa tem. E promover debates que tragam ideias através de colaboração para solução de problemas complexos”, disse Junqueira.

A executiva afirmou ainda que o Grupo Globo é pioneiro em muitas das práticas de compliance e integridade utilizadas atualmente no país. “O Grupo Globo tem impacto e alcance sem precedentes no Brasil. Falar sobre transparência e ética faz com que não só o ambiente empresarial, mas a sociedade entenda isso de maneira muitas vezes didática a partir do próprio conteúdo, com impacto que transcende a própria organização.”

Ricardo Wagner, diretor executivo de governança e conformidade da Petrobras, ressaltou que, atualmente, a maior parte dos casos que chegam à ouvidoria é de assédio moral, assédio sexual e discriminação e não mais de corrupção. A diretoria de Wagner foi criada depois da Operação Lava-jato, que teve a Petrobrascomo epicentro. O executivo afirmou que o compliance precisa permear todos os setores e atividades da companhia.

A Globo tem impacto e alcance sem precedentes no Brasil”

— Carolina Junqueira

“A grande virada de chave é entender que compliance e integridade não estão restritos a uma diretoria, a uma caixinha dentro do organograma da empresa, mas tem que ser um valor de toda a companhia. Cada funcionário é como se fosse um agente de integridade e responsável pelo todo da empresa. Então, buscamos fazer atuações mais preventivas no intuito de fazer campanhas e divulgar o código de ética”, disse.

Marcelo Vianna, secretário de integridade privada da Controladoria Geral da União (CGU), frisou a importância de que as investigações e eventuais punições por corrupção devem acontecer, mas com o cuidado de focar nos agentes dos desvios, sem penalizar ou inviabilizar as atividades empresariais.

Vianna disse que é fundamental a parceria entre os setores públicos e privados. “Não dá para falar de política pública sem ter interação entre os setores público e privado. Se de um lado estamos demandando que o setor privado tenha suas regras de integridade, o setor público tem que ter suas regras de integridade.”

O secretário citou a importância do Pró-Ética, programa desenvolvido pela CGU desde 2010 que premia empresas com programas de integridade de qualidade e este ano acontecerá em 1º de julho. “Se por um lado eu puno quem faz o errado, eu tenho que reconhecer quem faz o certo. Então o pró-ética é essa provocação que fazemos para a empresa: se você acha que tem um bom programa de integridade, submeta ele à nossa avaliação.”

Disponível originalmente no Valor. Publicado na CompliancePME em 2 de junho de 2026