Publicado na CompliancePME em 27 de agosto de 2020

A pressão provocada pela crise causada pela pandemia de covid-19 pode levar muitas empresas a sacrificarem a ética e a integridade nos negócios em troca de resultados no curto prazo, atrasando a evolução da adoção de medidas de compliance no Brasil. A avaliação é do líder de serviços de forenses e integridade da EY para a América do Sul, Marlon Jabbur.

O cenário atual cria a “tempestade perfeita” para vários tipos de fraudes corporativas. Elas podem surgir desde a corrupção envolvendo empresas e governos, como visto nos recentes escândalos em licitações para materiais e hospitais de campanha, até a manipulação de demonstrações financeiras para tentar enganar investidores e credores. “Tem gente que, por sobrevivência ou benefício pessoal, vai tomar decisões erradas”, afirmou Jabbur. “Com a pressão por resultado, vejo uma piora nos mecanismos de controle, mesmo tendo a percepção de que há mais conversa sobre ética nas empresas”, disse o especialista da EY.

Os riscos são reforçados por alguns resultados de uma pesquisa realizada pela EY no começo do ano, obtida com exclusividade pelo Valor. Feita com quase 3 mil profissionais de 33 países para avaliar os desafios relativos à ética e integridade nos negócios, ela revelou que, no Brasil, quase metade dos entrevistados acredita que comportamentos antiéticos acabam sendo tolerados quando envolvem pessoas do alto escalão ou profissionais bem quistos nas organizações. Este foi o terceiro maior índice entre os países pesquisados, ficando atrás de Turquia e Índia.

A pesquisa revelou também que 68% dos profissionais brasileiros acreditam que é difícil para as organizações manterem a integridade em períodos de rápidas mudanças ou duras condições de mercado, como é o caso da atual crise econômica.

Estes resultados contrastam com outras revelações trazidas pela pesquisa. Uma delas mostra que 98% dos entrevistados creem que é de extrema importância que a organização em que trabalham demonstre compromisso com a ética e a integridade. E 76% têm a percepção que práticas visando a ética e a integridade melhoraram significativamente em suas organizações ao longo dos últimos dois anos.

Para Jabbur, a contradição entre os resultados revela que temas relacionados a compliance ainda estão em processo de evolução no Brasil desde que a Operação Lava-Jato forçou as empresas a olharem para seus mecanismos de controle, temendo sanções como as que foram impostas aos envolvidos no esquema de corrupção desbaratado envolvendo a Petrobras.

“Ainda tem uma diferença grande entre o ‘walk the talk’, de fazer o que fala, e entre o que é de fato feito e o que as pessoas veem na prática”, diz Jabbur. Ele exemplifica a falta de maturidade destas questões com as respostas a uma pergunta feita na pesquisa sobre o que significa para as organizações agirem com integridade. Dentre as três características mais importantes que os entrevistados poderiam escolher, Jabbur destacou que a resposta “fazer a coisa certa mesmo quando ninguém está olhando” ficou em quarto lugar, atrás de obedecer leis e regras, transparência e agir de forma responsável com os colegas.

“Fazer a coisa certa quando ninguém está olhando é a essência da integridade, ela demonstra que a integridade está dentro do seu modo de agir”, afirmou o especialista da mEY. “O colaborador ainda cumpre as regras porque estão olhando, não porque é o que se espera.”

 

Esta notícia foi publicada originalmente no Valor Econômico