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Publicado na CompliancePME em 13 de dezembro de 2018

A CompliancePME foi apoiadora institucional do “2º Encontro sobre Ética nos negócios” promovido pelo Espaço Ética, que aconteceu no último dia 27 de novembro, no Centro Empresarial World Trade Center, em São Paulo, tendo tido como tema principal a ética corporativa e contado com palestrantes conceituados da área de filosofia e de negócios.

Como o evento foi muito rico em palestras e experiências, nós decidimos dividir esse artigo em duas partes para que você possa aproveitar o conteúdo de forma mais completa.

Se você não leu a primeira parte desse artigo, dê uma pausa na leitura e clique aqui.

O palestrante que sucedeu Djamila Ribeiro foi o presidente da Associação Comercial da cidade do Porto, Nuno Botelho, que apresentou a palestra  ‘’A destruição econômica em Portugal’’.

Seu intuito foi comparar o cenário político-econômico do seu país de origem com o do Brasil, ressaltando as especificidades de cada um e suas respectivas consequências.

Em seu ver, quando negócios e política se misturam nada funciona como deveria. Ele diz que é por conta de um lapso ético no tomar de decisões ao negociar que levaria as pessoas a tomarem atitudes duvidosas do ponto de vista moral, e para ilustrar a situação ele se utilizou do exemplo dos bancos portugueses.

Citou os casos do Banco Comercial Português e do Banco Espírito Santo-BES, que foram administrados por pessoas conhecidas em Portugal, onde houve gestão ruidosa, fraudes, ocultação de prejuízos, falsificação de contas e desvio de capitais.

Só a título de exemplo o BES, quando faliu, estava com uma dívida de 6 milhões de euros decorrentes, aparentemente, de corrupção na gestão. Na opinião de Nuno, o fato gerador desse prejuízo foram os conflitos de interesse entre o público e privado na administração dessas instituições.

Termina sua participação evidenciando que Portugal perdeu entre 2004 e 2011 a quantia referente a 20% do seu PIB por falta da ética e de Compliance na administração de entes públicos e privados.

Em seguida, tomou o lugar de fala Deltan Dallagnol, Procurador da República e Coordenador da Operação Lava-Jato.

Iniciou sua palestra indagando aos presentes: ‘’Será que a Ética vale a pena nos negócios’’?

Após burburinhos e breves debates entre os presentes, continuou sua fala opinando que o desenvolvimento econômico de um país está intimamente ligado à ética,declarando que essa ligação se encontra na confiança dos investidores, principalmente os estrangeiros.

Ao terminar esse raciocínio, o Procurador da República  mostrou dados estatísticos que mostraram a proporcionalidade entre o índice de corrupção e IDH, dados estes que mostraram que quanto menor o índice de corrupção de um país, maior o IDH.

Reforçou sua ideia de que precisamos criar uma comunidade ética e ‘’pensar o Compliance como senso de propósito’’, isso porque todos somos influenciados o tempo inteiro pelos demais e pela sociedade a qual estamos inseridos.

Em outras palavras, nosso comportamento seria muito influenciado por fatores externos e nós tenderíamos a nos moldar de acordo com os grupos sociais e instituições as quais pertencemos. Para provar o que estava dizendo, elucidou a sua tese apresentando-nos os experimentos de ASH.

Após mostrar esse e outros experimentos do gênero, explicou que muitas vezes deixamos nossos próprios valores de lado para seguir nossos líderes, por admiração e pelo fato de eles nos inspirarem. Dito isso, enfatizou o apoio dos líderes como um dos pilares de um programa de integridade, ou como costumamos dizer o ‘’apoio da alta administração’’ ou, ainda, o ‘’tone from the top’’.

Associou o alto índice de corrupção nos negócios ao que ele chama de ‘’pressão do contexto organizacional’’, quando há ausência de regras claras dentro das corporações, com ‘’foco agressivo no resultado atrelado a metas irrealistas’’.

Para encerrar sua participação, citou a tentativa de aprovação das 10 medidas contra a corrupção e que, na falha em aprova-las, criou-se o novo pacote anticorrupção que conta com 70 novas medidas.

Para finalizar um dia inteiro de muito conteúdo sobre ética e diversidade, subiu ao palco, com estrondosos aplausos, o historiador, professor e palestrante Leandro Karnal, que começou sua palestra ilustrando a ética como um fenômeno importante que deve ser popularizada e debatida por todos.

Seguiu sua linha de raciocínio dizendo que a ética pressupõe que alguém esteja vendo, o que chamou de ‘’vigilância externa’’ e, com isso, ele quis dizer que as pessoas agem de forma ética esperando a aprovação moral de outrem em relação às atitudes do primeiro.

Disse ainda que os ‘’não éticos’’ se utilizam do que ele chama de argumento sociológico e argumento histórico, onde o primeiro ele simboliza com a frase ‘’todo mundo faz’’, que é usada para justificar atitudes fora do padrão ético, mas que são frequentes em um meio; e em relação ao segundo, ele utilizou a frase ‘’sempre foi assim’’, mostrando que o argumento aqui é a historicidade do fato gerador de dúvida.

Exemplificou o fato de que a ética só existe enquanto se tem vigilância, aqui se referindo às pessoas que se envolvem de alguma forma em atitudes não éticas e que, ao serem descobertas nessas atitudes onde há desaprovação eles logo indicam os verdadeiros mandantes desse comportamento corrompido.

Orientou ainda que se observe o livre arbítrio como elemento essencial no julgamento de um fato considero antiético pois, sem ele, o indivíduo não agiu de forma livre e suas escolhas foram condicionadas e, portanto, não pode ser responsabilizado por aquilo que não escolheu.

O historiador acrescentou que é no ambiente de trabalho que se verifica a maior incidência da Ética e argumentou, nesse sentido, comparando com o ambiente familiar aonde, para ele, nós seríamos naturalmente éticos pelo vínculo sentimental que carregamos com aquelas pessoas.

Defendeu, ainda, que a ética é uma construção diária e comprovou sua tese ao comparar a Dinamarca moderna, que no passado conviveu com corrupção e que, aos poucos, o Estado foi criando mecanismos institucionais coercitivos para corrigir esse estado comportamental que resultou em um país onde, nos dias de hoje, o uso da força para garantir comportamentos morais não se faz mais necessário.

Concluiu argumentando que a Ética é um esforço permanente e que o discurso ético por si só não produz comportamento ético, que esse último seria resultado da soma de esforços periódicos dos envolvidos.

Ao terminar o evento, encontramos com Clóvis De Barros e conseguimos, com exclusividade, uma entrevista que está disponível para você conferir aqui.

Agradecemos ao Espaço Ética todo o apoio nos dado desde o primeiro momento e ficamos ansiosos para o próximo encontro que será realizado em 2019.